Ao longo da minha formação em Focusing, tenho-me aproximado do tema do crítico interno não tanto como um problema a resolver, mas como uma experiência a compreender. Cada vez mais sinto que a questão central não é “como calar o crítico”, mas como me relaciono com ele.
Pergunto-me frequentemente: o que acontece em mim quando não sinto claramente quem é esta voz? Quando ela permanece difusa, misturada entre a superfície do pensamento e o subterrâneo da experiência corporal? Nesses momentos, o crítico parece estar em todo o lado, imiscuído nas decisões, nos gestos, nas comparações, na forma como me olho e me avalio.
Entre o julgamento e o cuidado.
Há algo que fui descobrindo: muitas vezes não estou apenas em diálogo com o crítico interno; estou a criticá-lo. Surge então uma espécie de meta-crítica, subtil, onde tento corrigir ou silenciar essa voz com a mesma dureza que ela usa comigo. Quando digo a mim próprio “devia relacionar-me melhor com o meu crítico interno”, páro e pergunto: quem fala aqui? Sou eu, ou já é o próprio crítico a formular mais uma exigência?
Apesar do nome, a experiência do crítico interno não é exclusivamente negativa. Ao escutá-lo com mais atenção, começo a perceber que esta voz pode conter uma tentativa de cuidado, de orientação ou de regulação. Muitas vezes surge quando me comparo com os outros, quando me afasto de mim mesmo ou quando o corpo reage a dúvidas comportamentais ou existenciais. Parece habitar esse território delicado entre o querer e o dever.
Talvez o crítico interno transporte consigo tanto necessidades sentidas corporalmente como valores interiorizados ao longo da vida: valores familiares, culturais, geracionais. Nesse sentido, pode ser visto como uma voz que procura manter alguma forma de harmonia relacional, pertença ou coerência interna, ainda que o faça através de um tom duro ou exigente.
Há momentos em que sinto que aquilo a que chamo crítico interno se aproxima mais de uma forma de intuição: uma tentativa de dizer o que é melhor para mim. Se assim for, a quem se dirige essa voz? Talvez à parte mais impulsiva, ou àquela que reage automaticamente ao exterior. Esta perspetiva ajuda-me a reconhecer que, muitas vezes, sou eu que estou a criticar uma voz que tenta proteger ou regular.
Ouvir o que o Crítico Interno tem para dizer
É aqui que o Focusing se torna particularmente relevante. O Focusing não procura eliminar o crítico interno. Procura atravessá-lo.
Quando paro, escuto o corpo e dou espaço ao felt sense, começo a perceber que por detrás da crítica existem necessidades. O corpo reage porque algo importante não está a ser atendido. Ao aproximar-me dessas necessidades, torna-se possível distinguir a qualidade da voz do crítico: perceber quando fala a partir do medo, da rigidez ou da aprendizagem antiga, e quando aponta para algo vivo que precisa de cuidado.
O processo de Focusing conduz à emoção primordial que dá significado à experiência atual. A crítica deixa então de ser apenas ruído mental e passa a ser um sinal. Um convite à escuta.
Também noto que, muitas vezes, aquilo que me afeta nos outros (como as suas fragilidades, exigências ou necessidades ) desperta em mim o meu próprio crítico. Como se, ao reconhecer algo fora, tocasse em algo não atendido dentro. O crítico aparece então como mensageiro dessas zonas sensíveis.
Talvez o trabalho não seja vencer o crítico interno, mas aprender a estar com ele. Escutá-lo sem o tomar como verdade absoluta. Reconhecer o que traz, acolher as necessidades que carrega e, pouco a pouco, transformar a relação.
O crítico interno deixa assim de ser um inimigo.
Passa a ser um sinal.
Algo em mim que pede escuta, presença e relação.
