Procurar ajuda psicológica: porque é tão difícil dar o primeiro passo?

“Acho que preciso de ajuda!”

Procurar ajuda psicológica… eis algo bem difícil de fazer.

Assumir que se precisa de ajuda psicológica é, já em si, um primeiro momento difícil, decisivo e afirmativo de que algo em nós precisa de mudar. E, quase sempre, esta decisão não é dita em voz alta nem partilhada de imediato com alguém. É uma decisão forjada no silêncio do nosso íntimo, vivida muitas vezes em segredo, e que resulta de um longo processo de reflexão, de várias lutas internas entre aquilo que sentimos quase como um impulso mais instintivo, e a forma como fomos educados a ver o mundo, os outros e até a nós próprios.

Reconhecer que precisamos de ajuda psicológica

Porque, na maior parte das vezes, a ideia de precisar de ajuda psicológica é também a ideia de que há algo em nós que não está bem, algo que, sozinhos, não estamos a conseguir resolver. E isso implica reconhecer, à luz dos construtos sociais com que fomos crescendo, uma certa fragilidade, uma vulnerabilidade, ou até, para alguns, um sinal de que algo em nós é uma falha.

Mas, lá no fundo, há qualquer coisa que insiste.
Uma espécie de saber mais silencioso que nos diz que talvez o que precisamos não seja assim tão complexo: talvez precisemos, antes de mais, de ser escutados e compreendidos. E não apenas escutados de forma apressada ou funcional, mas verdadeiramente acolhidos. Sentirmo-nos seguros o suficiente para deixar aparecer aquilo que somos, sem medo de que as nossas expressões, os nossos erros, as nossas imperfeições, os nossos medos, as nossas contradições, dúvidas e até incongruências sejam vistas como algo estranho, esquisito ou digno de julgamento ou de rótulo.

Porque falar com amigos nem sempre chega

E é aqui que, muitas vezes, algo falha nas relações mais próximas.

Os nossos amigos podem ouvir-nos, podem até compreender-nos, e não temos grandes dúvidas de que querem o nosso bem. Mas quase sempre há uma opinião, um reparo, uma sugestão, um “devias” pronto a surgir. E, ainda que bem-intencionado, esse movimento acaba por tocar ao lado daquilo de que realmente precisamos. Porque, nesse momento, deixamos de nos sentir simplesmente compreendidos para passarmos a ser, de alguma forma, conduzidos, corrigidos ou orientados. E, invariavelmente, acabamos por voltar a fechar aquela parte de nós que, até aí, começava a ganhar coragem para se mostrar.

Psicólogo ou psicoterapeuta: quando essa ideia começa a surgir

É neste ponto que a hipótese de procurar um psicólogo ou psicoterapeuta começa a ganhar forma.

Mas não surge de forma linear ou tranquila. Surge, muitas vezes, no meio de um conflito interno que se intensifica: por um lado, a necessidade crescente de abrir espaço para aquilo que somos; por outro, uma voz crítica que nos vai alertando, por vezes de forma quase automática, para os riscos dessa exposição. “E se não fores compreendido?”, “E se é perigoso?”, “Não sabes quem vais encontrar”, “Isto é coisa de gente fraca”, “Devias conseguir lidar com isto sozinho”, “Ir a um psicólogo é assumir um fracasso”.

Estas vozes vão-se repetindo, vão ganhando peso, e coexistem com o cansaço de continuar a guardar tudo. Até que chega um momento em que esse esforço se torna difícil de sustentar. O corpo começa a dar sinais, a atenção falha, a presença muda, e os outros começam a notar. “Estás bem?”, “Não pareces o mesmo”, “Estás distante”… e quanto mais tentamos disfarçar, mais, de alguma forma, nos denunciamos.

Como procurar um psicólogo: entre o anonimato e a dúvida

E é então que se chega àquele ponto: procurar ajuda.

Mas mesmo aqui, o caminho não é simples.

Perguntar diretamente a alguém se conhece um psicólogo ou terapeuta pode parecer, para muitos, um passo demasiado exposto. Pode abrir espaço a conversas, a perguntas, a interpretações para as quais ainda não há disponibilidade. É claro que existem pessoas que sabem respeitar esse espaço, que percebem nas entrelinhas, que são cuidadosas e discretas. Mas, ainda assim, para muitos, a necessidade de resguardo leva a que esta procura seja feita de forma mais solitária.

E é nesse espaço que a internet surge como aliada.

No anonimato, começamos a procurar: “psicólogo”, “psicoterapeuta”, “ajuda psicológica”, “clínica de psicologia”… e rapidamente nos deparamos com uma enorme quantidade de resultados. Anúncios, clínicas, nomes mais conhecidos. Abrimos páginas, lemos descrições, tentamos perceber diferenças.

Mas, curiosamente, o que muitas vezes surge é uma sensação de repetição.
Os discursos parecem semelhantes: “espaço seguro e acolhedor”, “ambiente livre de julgamentos”, “escuta empática”, “apoio e compreensão”… Passamos então aos perfis, vemos formações, experiências, fotografias cuidadas… tudo aparentemente sólido, competente e, ainda assim, a escolha não se torna mais fácil.

Qual o melhor tipo de terapia para mim?

Perante essa dificuldade, procuramos novas formas de decidir.
Talvez recorramos ao ChatGPT ou a ferramentas semelhantes, descrevendo o que sentimos na esperança de que nos indiquem a melhor abordagem terapêutica. E, muitas vezes, recebemos uma resposta clara, um modelo sugerido, frequentemente aquele que reúne mais evidência científica, mas talvez não o melhor para nós. Voltamos então à procura, agora com um critério mais definido… e damos por nós novamente no mesmo ponto.

Outras estratégias surgem: plataformas que fazem a correspondência entre cliente e terapeuta, quase como um Tinder da terapia, ou plataformas onde publicamos o nosso pedido e aguardamos que os profissionais venham até nós. E, de facto, isso pode facilitar, pode reduzir a indecisão inicial.

Mas há algo que permanece.

A pergunta que não desaparece:
“E se não for o terapeuta certo para mim?”

Marcar a primeira consulta de psicologia: o momento decisivo

E mesmo quando, apesar de tudo, escolhemos, ainda há um último passo a dar, e talvez o mais angustiante: marcar a primeira sessão.

É muitas vezes aqui, já tão perto, que a intenção vacila. Surgem dúvidas sobre se somos capazes, se estamos preparados, se queremos realmente assumir esse compromisso, se esta é mesmo a melhor decisão. E, por vezes, basta um detalhe logístico (horários, disponibilidades, agendas) para que tudo se suspenda.

Mas talvez essas dificuldades não sejam apenas práticas.
Talvez sejam também a expressão, em forma concreta, das mesmas dificuldades que vivemos no resto da nossa vida: a dificuldade em expormo-nos, em sermos vistos, em arriscarmos ser compreendidos.

E talvez seja só isto

E talvez, no meio de tudo isto (das dúvidas, das pesquisas, das comparações, dos avanços e recuos) haja algo que possa ser mais simples do que parece. Não se trata necessariamente de encontrar o terapeuta certo à primeira, nem de ter a certeza absoluta de que estamos preparados. Trata-se, talvez, apenas de permitir que esse movimento aconteça. De não interromper imediatamente o impulso que nos levou até aqui. Porque procurar ajuda não é um sinal de falha, nem um desvio do caminho. É, muitas vezes, o primeiro gesto real de encontro connosco próprios. E, por vezes, tudo começa exatamente aí: não na certeza, mas na disponibilidade para dar esse primeiro passo, mesmo sem garantias.

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