O Vício do Jogo: Quando a Próxima Jogada Promete Resolver Tudo

A adrenalina dispara com a ideia de um ganho rápido que ainda que incerto é quase uma certeza. “Desta vez vai ser”, ou “Não tem como não dar certo”, são expressões que se formam para validar aquele gesto que nos vai prender até à saída dos resultados. No caso das raspadinhas a expectativa é vivida a cada limalha que se solta do cartão de jogo que, depois de limpo, é visto e revisto para se ter a certeza que de facto, mais uma vez, o prémio não está ali. “Provavelmente, está no cartão seguinte”, e procura-se no bolso mais algum dinheiro e o processo repete-se: a excitação sentida no corpo pela projecção de que se vai, mais que ganhar, conquistar o prémio, e o prazer que dá imaginar como esse prémio dissolverá esta bola de neve de problemas que cada vez se torna maior e indomável.

Uma mente e um corpo que não descansa

Seja nos jogos de sorte e de azar em espaços reais (casinos), no online (póquer, roleta, apostas desportivas), nas raspadinhas ou no day-trading (apostas no aumento ou queda do valor facial de moedas, criptomoedas, comodities, etc.), todo o jogador apresenta os mesmos comportamentos: a certeza de que não tem um problema de compulsão, que consegue parar quando quer e que só precisa daquela conquista/vitória para ficar satisfeito e sair livremente da vontade de jogar.

E, também, todos experimentam as mesmas experiências: o corpo contorce-se à espera dos resultados, a concentração em funil para a estratégia de jogo, o tempo que se torna curto para cumprir com todas as outras tarefas e o espaço que se encolhe entre cada jogada. O jogador sente-se refém do seu próprio corpo na medida em que a tensão muscular vivida em cada músculo parece que só encontra descanso no momento de fazer a aposta. Mas isso dura apenas uns segundos porque depois a tensão muscular volta a viver a expectativa do resultado.

A vida dupla: vergonha, culpa e o peso de esconder

E há outro ponto em comum entre todos os jogadores: a certeza que vão ser incompreendidos. Que ninguém vai perceber corretamente o que está ali em causa. E fecham-se porque sabem que vão ser julgados e condenados. A vergonha está sempre presente, bem como a culpa como se, exposto, o segredo levasse consigo tudo o resto. Daí conseguirem fazer vida dupla. E isso obriga a um esforço enorme, a um consumo de energia imenso e a esticar a imaginação para encontrar novas estratégias para conseguir mais dinheiro, para esconder as dívidas e o medo de se ser descoberto.

Quando se joga de forma compulsiva está-se à procura de tentar ser quem o jogador não consegue ser na vida real. E o jogador que se esconde no jogo pode sentir que não tem o que os outros “normais” têm. Resolver o problema de jogo implica uma abordagem holística na medida em que é necessário compreender o que o jogo está ali a fazer pela pessoa, antes de se pensar em tirar-lho. E é exactamente aqui que a psicoterapia fenomenológica existencial pode fazer a diferença: não a olhar para o jogo como um inimigo a abater, mas como uma porta para perguntar que vazio está esse gesto a tentar preencher.

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