Há algo nos sonhos que nos perturba. Não apenas nos sonhos que assustam (e que nos acordam), mas também os outros que ficam connosco durante o dia, os que parecem querer dizer alguma coisa, os que trazem pessoas que já morreram, situações que não aconteceram mas que sentimos como reais.
A maioria de nós cresceu a ouvir que os sonhos significam alguma coisa. Que há mensagens escondidas, símbolos a decifrar, arquétipos a interpretar. Procuramos livros, sites, aplicações. Sonhar com água significa emoções. Sonhar com dentes a cair indica ansiedade. Sonhar com uma casa é sonhar contigo mesmo. Há algo sedutoramente simples nesta ideia: a de que o sonho é um código e que, se descobrirmos a chave, percebemos o que o inconsciente nos quer dizer.
Mas e se esta imagem for, ela própria, uma armadilha?
Da Antiguidade a Freud: o sonho como mensagem cifrada
Desde há milénios que a humanidade trata os sonhos com reverência e curiosidade. No Egipto antigo, os sacerdotes dormiam em templos sagrados à espera de sonhos proféticos. Na Grécia, Asclépio curava através do sonho. Na tradição judaica e islâmica, os sonhos são veículos de revelação divina. A Bíblia está cheia deles.
Freud, no virar do século XX, fez algo ao mesmo tempo revolucionário e, neste aspecto, surpreendentemente antigo: tratou o sonho como uma mensagem cifrada. Para ele, os sonhos são a via régia para o inconsciente. Mas para aceder ao que realmente dizem, é preciso traduzir o seu conteúdo manifesto (o que sonhamos) no conteúdo latente (o desejo reprimido por detrás). O sonho esconde. O terapeuta decifra. A estrutura é sempre a mesma: há um sentido escondido que precisa de ser descoberto por alguém com a chave certa.
Esta visão domina o imaginário popular até hoje. E é compreensível: é uma narrativa poderosa. Dá ao sonho um ar de profundidade e mistério. Diz-nos que somos mais do que aquilo que pensamos saber de nós mesmos.
O problema é que esta narrativa pode ser, precisamente, o que nos impede de realmente ouvir o sonho.
A viragem fenomenológica: o sonho não esconde nada
A fenomenologia, enquanto tradição filosófica, começa com uma atitude aparentemente simples mas profundamente exigente: ir às coisas mesmas. Não ao que presumimos que as coisas significam por detrás. Não ao que a teoria nos diz que devem ser. Mas ao que se mostra, tal como se mostra.
Aplicada aos sonhos, esta atitude muda tudo.
O psiquiatra suíço Medard Boss, discípulo directo de Heidegger e fundador da Daseinsanálise, propôs uma leitura radicalmente diferente. Para Boss, o sonho não esconde nada: é já, em si mesmo, uma forma de existir no mundo. Não há conteúdo latente a traduzir. Há uma existência a descrever: o modo como a pessoa se relaciona com o espaço, o tempo, os outros, as emoções, as possibilidades de vida que se abrem ou se fecham.
Sonhar não é receber uma mensagem. É estar de uma determinada maneira.
O homem com o binóculo
Boss descreve o caso de um homem solteiro de trinta e quatro anos que lhe traz o seguinte sonho:
“Na noite passada sonhei que diante de mim se estendia uma vasta planície. Era mais ou menos meio-dia. O sol estava no zénite e brilhava com grande intensidade. Ao longe erguia-se uma colina. Ao seu pé divis, logo, um grupo de lindas moças; via-as muito pequenas por causa da distância, mas nenhum detalhe me escapava. Busco desesperadamente um binóculo para as observar melhor.”
Terminado o relato, acrescentou: “Se ao menos eu tivesse conseguido um telescópio, que aumenta muito mais…”
Uma leitura simbólica clássica procuraria o que o binóculo representa. Seria um símbolo fálico? Um substituto do desejo sexual? Expressão de voyeurismo?
Boss recusa esta via. Em vez disso, pergunta: o que é que este sonho nos mostra, directamente, sobre o modo como este homem existe?
E o que se mostra é nítido: uma solidão absoluta. Uma planície plana, sem relevo, sem ascensão possível. Mulheres que existem apenas à distância, acessíveis unicamente pelo olhar, e nem sequer pelo olhar directo, mas mediado por um instrumento. Quando a analista assinala ao paciente que, em vez do binóculo, poderia ter desejado botas de sete léguas para ir ao encontro das mulheres, ele fica atónito: “Isso nem sequer me ocorreu.”
Aqui não há decifração. Há descrição. O sonho não precisou de ser traduzido. Precisou de ser visto. E o que se viu foi precisamente o que o paciente vivia na vigília: uma relação com os outros marcada pela distância, pela reserva, pelo contacto apenas visual, nunca corporal, nunca próximo.
O sonho não dizia nada de novo. Mostrava, com uma clareza brutal, como este homem existia.
O que isto significa para ti
Se tens sonhos que te intrigam, que regressam, que deixam uma marca, talvez a questão não seja o que significam mas o que mostram. Não há código a decifrar. Há uma existência a conhecer melhor.
É exactamente isto que a terapia existencial propõe: não a interpretação dos teus sonhos, mas a sua exploração fenomenológica. Como é que te moves no espaço onírico? Com quem te relacionas e como? O que está presente, o que está ausente? Que disposição afectiva atravessa o sonho do início ao fim?
Estas perguntas não precisam de um especialista para começar. Mas há algo que acontece quando este trabalho é feito num espaço terapêutico: a capacidade de te surpreenderes com o que já sabes de ti e que o sonho mostrou, muito antes de teres palavras para isso.
Se sentes que os teus sonhos têm algo a dizer (tens razão em senti-lo) talvez valha a pena explorar o que mostram, em vez de procurar o que escondem.
