Caso Clínico Ficcional – Diário de um TerapeutaParte I — O Encontro com P.


P. apareceu à hora exata. Nem um minuto antes, nem um minuto depois. A imagem que surgiu no ecrã parecia medida a régua e esquadro: camisa branca, impecavelmente lisa, sem um único vinco. O rosto, pesado, de um homem de meia-idade, mostrava um brilho discreto a despontar do fundo de uns olhos enterrados e quase escondidos. Não via as suas mãos. A postura manteve-se direita durante toda a primeira sessão.

Havia nele algo de intimidante. A solidez do rosto, a seriedade firme, a intensidade que emanava da sua presença… tudo isto me fez sentir observado, avaliado. Talvez não fosse surpreendente: na chamada telefónica que antecedeu a consulta, P. inundou-me com uma série de perguntas rápidas, incisivas, quase desconfiadas. A desconfiança parecia ter entrado na sala antes dele.

Ainda assim, confirmou a consulta. E isso, confesso, surpreendeu-me.

A razão pela qual veio… ou talvez não

Perguntei-lhe o que o trazia à terapia. Disse que estava a viver “um momento particular”, algo momentâneo, mas suficiente para lhe trazer preocupações. Acrescentou, com certo desdém, que viera a pedido da esposa.

A forma como o disse denunciava irritação e até algum desprezo. Contou que seria perfeitamente capaz de resolver tudo sozinho, mas que se sentia cansado, sem energia, desgastado pelo ambiente fervilhante da empresa. E, para evitar discussões com a esposa, decidiu ceder ao pedido dela.

Com um sorriso enviesado, acrescentou:
— Quem devia estar aqui era ela. Ela sim precisa de ajuda.

Registei mentalmente a frase. Talvez, um dia, pudesse explorá-la.

A “injustiça” na empresa

Voltei a focá-lo naquele “momento particular”. Então, desfiou a sua queixa: vivia uma situação de pura injustiça na empresa. Segundo ele, o sucesso empresarial devia-se, em larga medida, ao seu trabalho. Ms as chefias, incompetentes, não reconheciam o seu valor.

Perguntei-lhe por que razão tolerava incompetência de superiores. A resposta foi desconcertante:

— Os meus valores morais cristãos impedem-me de espizinhar pessoas menos capazes.

Aquela resposta despertou uma curiosidade imediata. Ajeitei-me na cadeira para poder mergulhar melhor na narrativa, mas o gesto, aparentemente inofensivo, pareceu acender algo nele. Os lábios moveram-se num esgar subtil, como um microjulgamento. Mais tarde percebi que interpretara o meu movimento como sinal de insegurança, o que o levou a (percebi mais tarde) colocar em causa a minha capacidade de o ajudar.

O momento em que algo amoleceu

Perguntei-lhe como era viver sob o comando de pessoas “menos capazes”. A resposta veio seca, impaciente:

— Como é que acha, Dr.? Gostaria de ter incompetentes a gerir o seu trabalho?

Aproveitei a intensidade emocional para testar a compreensão:

— Imagino que deva sentir uma grande injustiça em não reconhecerem a importância do seu trabalho.

Aqui, pela primeira vez, algo mudou. O olhar endurecido amoleceu e desviou-se. Pareceu procurar esconder, ou talvez proteger, o que sentia. Vi-lhe uma sombra de zanga, seguida de uma aura de tristeza e isolamento.

— Sim… — murmurou. — Não tem sido fácil.

Depois disso, silêncio.

O olhar que fere e a pergunta que abre

Tentei oferecer-lhe chão:

— Parece que o mundo está todo contra si. Até a sua mulher acha que não está capaz de lidar com a situação.

Ele ergueu os olhos para mim e encontrei um brilho acutilante, inquieto. Parecia sentir-se atacado, como se eu tivesse tocado num ponto proibido.

— Parece-me zangado com a minha observação — arrisquei. — É como se eu fizesse parte daqueles que não reconhecem a sua capacidade. Imagino que se sinta muito sozinho. Pergunto-me como será viver num mundo que não o entende.

Esperei que isso o convidasse a entrar mais fundo em si mesmo. Mas permaneceu imóvel, fixo, a olhar directamente para mim quando de repente os desviou de mim quando me apercebi que estavam humedecidos.

E foi ali, nesse momento o quase impercetível, que percebi a dimensão do peso que P. trazia consigo.

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