O poder da inquietação
A primeira sessão terminou de forma abrupta. Não por minha vontade, mas pela de P., que num ápice se levantou enquanto dizia: “Bem, parece que o nosso tempo acabou, certo, Dr.?”.
Dias depois, a sensação de ter sido arrancado da sessão ainda me acompanhava. Não refleti sobre ela como gostaria e, agora, a poucos minutos da segunda sessão, o mesmo desconforto regressava.
Reconheci em mim uma inquietude subtil, e deixei-me ficar assim, certo de que este estado de insegurança é, muitas vezes, benéfico para a terapia. Conheço-me suficientemente bem para confiar nestes pequenos desassossegos que surgem antes de certas sessões. Só fico realmente preocupado quando me sinto demasiado confiante.
A função clínica da insegurança
Com a experiência, percebi que esta insegurança prévia me mantém mais aberto, mais curioso e mais disponível para a relação. Se entro demasiado seguro de mim, corro o risco de antecipar a experiência do outro ou adotar uma atitude interpretativa.
E sempre que isso aconteceu, saí das sessões frustrado, com a sensação de não ter estado verdadeiramente “ali”, dentro da narrativa que me era oferecida. Perdi oportunidades de tocar nos significados profundos que o cliente procura.
Por isso, manter esta incerteza sobre o que poderá acontecer na próxima hora coloca-me numa posição mais autêntica para acolher o “desconhecido”: essa aventura que é entrar no mundo interior do cliente.
O medo partilhado do desconhecido
Importa lembrar que o cliente também pode estar a sentir isto: insegurança sobre o que quer revelar, medo do que pode descobrir sobre si, receio de dizer em voz alta aquilo que só ousa pensar porque sabe que, dito, se torna verdade.Quem procura terapia aceita correr riscos e aventurar-se no próprio mundo. E, quando percebe a vastidão desconhecida que leva dentro, a insegurança surge inevitavelmente.
Mas, quando confia no terapeuta, começa a olhar para o seu mundo interior com desejo de pertença. É aí que se atreve a avançar.
O reencontro com P.
P. surge no ecrã com um ar sério e pesado. Após as cordialidades, instalou-se um silêncio denso. A mesma atitude de testar o outro, presente na primeira sessão, permanecia ali.
Pareceu-me então adequado perguntar-lhe o que tinha achado desse primeiro encontro. Sabia que algo daquela hora o tinha trazido de volta; caso contrário, não estaria ali para a segunda sessão.
Inicialmente, manteve-se sisudo e sério e não respondeu. Entre nós, a densidade do desconforto cresceu, mas, penso, apenas para mim. Fiquei com a impressão de que P. estava no seu “território natural” na forma como vive a relação com o outro. Mantive-me atento ao impacto que a expressão do seu rosto tinha no meu corpo: senti-me tenso, muito tenso, como quem controla as emoções para não as deixar transbordar.
Resolvi devolver-lhe essa sensação, dizendo que parecia estar “sólido como uma rocha”, e perguntei se a minha observação lhe fazia sentido. P. disse que nunca tinha parado para pensar na forma como estava fisicamente com o outro, mas que sim, conseguia concordar.
“Ótimo!”, pensei eu, antecipando uma possível brecha, uma abertura para explorar essa imagem na medida em que ele parecia conectar-se com a própria experiência.
Sem deixar escapar a oportunidade, perguntei-lhe qual a parte da minha observação que mais se aproximava do que sentia. A reação foi curiosa: aquele ar duro e impenetrável caiu, dando lugar a uma postura mais branda, visível no modo como se deixou cair ligeiramente na cadeira.
Mais tarde, ao refletir, percebi que parecia estar à espera de autorização para deixar de estar tão na defensiva. E isso intrigou-me, porque relacionei este momento com o facto de ter dito, na sessão anterior, que estava ali sobretudo porque a mulher insistira. Relacionei também com algo que partilhara: na empresa é quem mais sabe, mas não assume lugares de comando ou decisão.
Haveria ali algo de um homem que evita decidir, mas que ao mesmo tempo se percebe como moral e racionalmente superior aos outros?
Contudo, esta segunda sessão não trouxe o tema das decisões. O que se tornou evidente foi outra coisa: para P., a tensão na relação com os outros não é vivida como tensão, mas como um esforço ativo de se manter racionalmente afastado da “sedução dos prazeres da vida”.
E foi curioso como chegámos a este ponto: da tensão relacional aos prazeres da vida. Mas é isto que a atitude de mergulhar na incerteza da relação terapêutica permite: aproximar-se do que é próprio do ser.
Neste caso, explorar a sensação de ser “pedra” conectou P. com a necessidade de ser perfeito. De outro modo, acreditava ele, estaria a comunicar aos outros que pertencia à “raça de pessoas” que dá mais importância ao prazer desenfreado do que à atitude moral.Rematou ainda: “Foi assim que o Império Romano caiu!”.
Ao terminar a sessão, fiquei com a sensação de que a “rocha” tinha fissuras, e que P. estava a começar a olhar para dentro dessas pequenas brechas.Talvez na próxima sessão algo possa finalmente atravessá-la.
