Diário de um Terapeuta – As portas que guardamos cá dentro.


M. prepara-se para entrar na sessão e eu procuro recordar a nossa última sessão. Releio os apontamentos e, ao encontrar a palavra “porta”, a minha mente percorre o caminho terapêutico desta jovem cliente. Depois de tanto termos explorado, há ainda um lugar bem guardado no mundo interno de M. Um lugar importante.

Na última sessão, M. falava dessa porta como um acesso ao ódio em relação ao mundo e aos outros. Falava também de um caminho que levava até à criança magoada. O que não ficou claro para mim foi se essa porta dava acesso a tudo isso ao mesmo tempo ou se, já dentro desse espaço, existiria ainda outra divisão que guarda, esconde ou protege essa criança ferida.

Dou por mim a pensar no quanto deve ser difícil para M. guardar tudo isto sozinha. No peso de carregar um segredo assim. Imagino que seja algo tão doloroso que, por agora, nem no espaço terapêutico consegue ainda ser dito.

Por breves instantes, coloco o meu próprio trabalho em causa: que tipo de terapeuta tenho sido para M.? Serei o terapeuta de que ela precisa? Se, depois de tanto tempo de terapia, M. ainda não se sentiu suficientemente segura para expor algo tão profundo, será que não estou a falhar?

Esses pensamentos surgem, mas não ficam. Sei que cada pessoa tem o seu tempo para construir confiança no terapeuta, no processo e em si mesma. O tempo necessário para poder ocupar o espaço terapêutico com a sua vulnerabilidade.

Sei também que, à medida que uma pessoa vai vivendo e revivendo o seu mundo interno em terapia, esse mundo começa, pouco a pouco, a ganhar alguma ordem. Os sentimentos tornam-se mais claros. E isso abre espaço para novas explorações: novas formas de sentir, de se relacionar com o passado, com o presente, com os outros e consigo própria.

É muitas vezes assim que se descobrem portas interiores que nem sabíamos que existiam. Portas que guardam experiências e sentimentos que preferimos não tocar. Portas que existem para impedir que algo venha “cá para fora”. Portas que tentam proteger-nos de julgamentos internos antigos, mas que continuam a ameaçar o projecto de vida que estamos a tentar construir.

Foi algo semelhante que aconteceu com M. Desde cedo estabelecemos uma relação terapêutica sólida, que nos permitiu avançar bastante pelo seu mundo interior: conquistar espaços, lançar luz sobre partes esquecidas de si, repensar escolhas feitas e escolhas adiadas. Esse trabalho foi essencial para chegarmos a esta zona tão importante das suas crenças e da forma como se vê no mundo.

Foi preciso ir “limpando” e “arrumando” a casa para chegar a um lugar que M. procurou esconder de si própria, quase como se soubesse que ali havia algo difícil de enfrentar. E tem sido esse o nosso trabalho: questionar estruturas e juízos de valor que, em tempos, tiveram a função de a proteger do mundo, mas que acabaram por se virar contra ela sob a forma de uma autocrítica dura, de falta de confiança e da construção de um projecto de vida pouco verdadeiro.

Todos estes pensamentos passaram pela minha mente antes da sessão com M. Ajudam-me a situar-me no processo e a aproximar-me do que poderá fazer mais sentido para ela neste momento. A partir deste lugar, sinto-me mais disponível para me aproximar dessa porta com M. e, juntos, perceber o que fazer.

Entramos e arriscamos o desconhecido?Ou ficamos ainda junto à porta, a tentar compreender por que razão ela existe?

Leave a Comment