A Náusea: uma fenomenologia da perda de sentido


Uma leitura exigente!

Não é um livro de leitura fácil. Não é um romance, nem um livro de aventuras. É um livro pesado, de grande profundidade existencial, que põe à prova a resiliência de quem assume o projeto de o ler. Sim, porque esta leitura não é lúdica (para mim não foi). Mas também não é propriamente uma leitura de trabalho. Foi, para mim, uma leitura-projeto.

O livro é muito interessante porque aborda a forma como a angústia de viver emerge à consciência e como essa experiência é vivida. Não é, por isso, uma temática cativante, leve ou repleta de insights poderosos e transversais a todos. É precisamente o oposto. Assistir ao momento em que Roquentin começa a tomar consciência de que as coisas à sua volta não têm um sentido pré-definido ao mesmo tempo que ele próprio experiência uma perda de sentido naquilo que pensava ser a sua essência, é um exercício difícil de acompanhar. Um processo confuso, incerto, que me deixou, inclusive, com algum receio sobre aquilo que a natureza humana pode revelar quando alguém se sente encurralado entre a penumbra do esquecimento e da solidão.

Ou seja, havia na minha intenção compreender o significado intrincado da mensagem que Sartre nos quis transmitir. Cada vez que pegava no livro era como se me dirigisse a um encontro com alguém nebuloso e enigmático, alguém que não parecia ter a mesma vontade que eu de estar ali. Ainda assim, tentar resolver esse mistério junto de quem não parecia querer dar nada nesse encontro tornou a leitura num exercício de empatia frustrada, o que acaba por ser, curiosamente, um bom exercício para um psicoterapeuta de abordagem existencial.

A Náusea: quando os sentidos herdados falham.

A náusea a que Sartre se refere corresponde a esse momento em que Roquentin (que poderia ser qualquer um de nós) começa a sentir que o modo como está no mundo já não corresponde às expectativas que tinha sobre a vida em geral. Expectativas essas assentes em construtos sociais, onde cada um representa um papel que, por sua vez, dita a forma como deve estar no mundo e com os outros. Quando começa a sentir que esses significados pré-existentes já não correspondem à forma como se sente em si mesmo, nasce uma vertigem que o leva a questionar o sentido da sua própria vida.

Aquilo que Roquentin descreve assemelha-se à experiência de alguém que está a adoecer. Mas Roquentin não está doente: está a viver uma revelação ontológica, na medida em que o real perdeu as suas camadas habituais de sentido. Vê-se, então, às portas de um processo de desconstrução pessoal, ao assumir para si a responsabilidade de criar o seu próprio sentido. É desta forma que Sartre nos apresenta a ideia de solidão ontológica.

Esta condição, apresentada assim, parece assustadora. Afinal, quem quer assumir que viver é, no fundo, um ato verdadeiramente solitário? Que estamos sós na forma como decidimos viver? Todos desejamos uma vida rodeada de pessoas que nos admirem, que façam parte do nosso percurso e que nos proporcionem memórias e experiências cuja partilha contribui para a avaliação de termos vivido, ou não, uma boa vida. A palavra solidão soa a fracasso, tristeza, doença, desamparo.

Solidão ontológica não é isolamento.

Não me parece, contudo, que Sartre nos queira dizer que viver na solidão seja a única forma autêntica de viver. O que me parece é que Sartre procura alertar para o facto de que esse balanço que fazemos da nossa vida, essa contabilidade de partilhas felizes com os outros, só tem verdadeiro valor se assentar num projeto de ser profundamente pessoal; um projeto que só pode ser forjado na condição de que ninguém pode escolher por nós e de que o sentido que damos à nossa vida é exclusivamente da nossa responsabilidade.

Apesar de esta assunção parecer assustadora, é também profundamente libertadora. Nada melhor do que contarmos connosco mesmos para nos dirigirmos aos espaços que fazem sentido para nós. Pelo contrário, se definirmos o nosso sentido de vida a partir daquilo que achamos que os outros esperam de nós, ficamos desde logo condicionados e limitados no nosso espectro de escolhas possíveis. A liberdade última assenta precisamente nessa atitude de sermos nós a escolher o nosso próprio caminho. Pode parecer solitário. Mas é, acima de tudo, edificante.

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