O luto começa antes de termos palavras para ele. Naquele dia, o momento que já tinha imaginado como um dos mais intensos e importantes da minha vida chegou. O receio de que o que se anunciava era real apoderou-se do meu corpo à medida que me deslocava para o local do acidente. Não sei como a nossa mente consegue projectar tantas antecipações, tantas perguntas, imaginar vários cenários possíveis em dois ou três segundos que foi o tempo que as minhas pernas em corrida demoraram a chegar. A confirmação deu-se primeiro com o silêncio instalado à volta de um corpo que jazia no chão, e depois com a ausência de resposta à minha pergunta: “pai?”, ao mesmo tempo que observava se havia ar a circular junto ao nariz e à boca. Mas não havia sinais. O meu pai já não estava ali. Tudo fora muito rápido, muito limpo até, uma vez que não havia sangue nem um esgar de dor. O que aumentou a sensação de absurdo. A mesma que continuo a viver ainda hoje.
Naquele dia, o mundo reconfigurou-se. Havia uma vida vivida com aquela pessoa que passa agora a existir na memória e na ausência. No fundo, a pessoa que foi continua a existir, e nós continuamos a viver com ela. Enquanto fizer parte da nossa memória, enquanto continuarmos a experienciar a sua ausência, essa pessoa continua viva e, nesses termos, fará parte do nosso futuro. Mas sem que possamos ouvir a sua voz, tocá-la ou escutá-la. Apenas pela imaginação.
Neste caso, a morte apareceu sem anúncio. Como se estivesse sempre ali perto, mas sem que ninguém desse por ela. Ainda não era nomeada, ainda não tinha esboço de ser. Era uma mera possibilidade estatística que se vinha anunciando pelas marcas do tempo impressas no corpo e que mais cedo ou mais tarde haveria de confrontar-nos. Mas nem essa pré-preparação deu tempo. De forma eficaz e silenciosa, a morte fez-se aparecer e desaparecer num ápice, deixando-nos apenas um corpo sem vida nas mãos e mil questões acerca do propósito da existência, do valor que lhe damos e da fragilidade de que somos feitos.
Este modo de morrer é um dos muitos que acontecem diariamente. Há lutos para todos os sofrimentos e pesares. Há as mortes lentas na agonia da dor, pela impossibilidade de reverter o que avança. Há as lentas pelo caminhar da idade. Há as mais cruéis, que nos fazem sentir responsáveis pelo que acontecia tão perto e que não vimos. Uma coisa é comum a todas: a morte é para quem fica com o corpo nas mãos, não para quem já não habita o corpo.
Para quem fica, o significado da existência faz-se pesar e sentir. A vida que antes habitava aquele corpo ocupava um espaço na vida de todos com quem se relacionava e esse espaço funde-se agora com um refazer do tempo vivido e por viver. A vida que parte é tão corresponsável por quem somos como por quem seremos sem ela. No espaço agora ocupado pela memória do outro desfazem-se laços onde antes havia relação. Mas forjam-se outros, necessariamente. As vidas daqueles que faziam parte da vida de quem foi seguem novos caminhos, trilhados pela necessidade de dar sentido ao absurdo, ao valor que damos à vida. É a vida a readaptar-se a uma nova realidade, pois a memória não basta para que a vida se mantenha como até então fora.
A morte, para quem vela o corpo, significa sempre que a partir desse momento passam a existir dois modos diferentes de viver: a vida em memória e a vida na ausência. Seja qual for a qualidade da relação entre os dois, o momento da morte certifica ao que está vivo que aquela vida que se foi tem um significado para si. A morte é sempre um apontar de caminho, um caminho que ficou por percorrer, que foi interrompido, ou que simplesmente não chegou a começar. E face a essa facticidade, o modo como pensamos a própria vida ganha contornos diferentes daqueles que até então pesavam na forma como olhamos para as nossas acções.
O processo de luto não tem forma nem prazo. Tem, isso sim, um peso que só quem perdeu alguém reconhece, e uma exigência silenciosa de nos tornarmos diferentes daquilo que éramos antes da perda.
→ No próximo artigo: o lugar solitário para onde o luto nos conduz, e o papel do espaço terapêutico no processo de dar sentido à perda.
