Uma coisa é pensá-la. Outra é vivê-la na pele.
Às vezes, transgredir revela que a minha liberdade está presa num espaço onde não me reconheço.
Ou que não sinto direito a ocupar lugar nenhum. Como se aquilo que fui, e aquilo que sou, impedisse aquilo que ainda posso vir a ser.
Pode mostrar que as regras que me impõem não são minhas, e não me servem.
Pode ser um gesto secreto de rebelião, uma forma silenciosa de dizer: eu existo como sou, imperfeito aos olhos dos outros, e suficientemente empático para não me censurar.
Pode ser também o sinal de que permito que o mundo e os outros me afoguem em dúvidas.
Há algo de egoísta na transgressão. De perverso. Mas talvez esses sentimentos sejam apenas o reflexo de querermos agir sem o olhar dos outros sobre nós. Livres de vergonha. Livres de culpa.
Mas será mesmo liberdade?
A transgressão só existe porque procuro relacionar-me com o mundo e com os outros. Mas se manifesto essa necessidade através da oposição então é porque ainda não habito totalmente o meu próprio ser. A transgressão será um primeiro acto consciente que visa a apropriação do prórpio ser total. É, então, um primeiro acto próprio.
Autenticidade não é transgredir. É agir de acordo com os meus valores, independentemente de como a sociedade os vê.
Quando preciso de transgredir, é porque existe um conflito dentro de mim: a parte que quer ser (ou descobrir) quem é e a parte que quer ser com o outro.
A transgressão é este rasgo interno. Um pedido de ajuda disfarçado de ruptura.
Uma tentativa de quebrar a invisibilidade e dar voz à parte primordial de mim que quer descobrir-se, compreender-se e aceitar-se num mundo que insiste em falar outra língua.

