Lidar com a perda de alguém próximo conduz-nos inevitavelmente a um lugar muito nosso e solitário. O luto tem essa particularidade: mesmo quando partilhado, é sempre vivido por dentro, num registo que mais ninguém acede completamente. Procuramos naturalmente também aqueles para quem essa morte traz o peso da ausência e o valor da memória, dos valores e dos princípios vividos. Porque essa carga simbólica, fundida pela convivência, aumenta a certeza de que o sofrimento é válido e reconhecido. A partilha da dor ajuda a lidar com a solidão para onde a morte naturalmente nos encaminha.
Reflectir sobre a morte é reflectir sobre a vida, e o único lugar onde isso pode ser feito é no lugar mais profundo do nosso ser. É a partir daí que inevitavelmente fazemos as perguntas que vão influenciar todo o nosso movimento entre os outros e pelo mundo. É a partir desse lugar que, sem nos apercebermos, já estamos a fazer escolhas pois as respostas que procuramos dar a perguntas como “o que ando aqui a fazer?”, “quem sou eu?” ou “o que faço com a minha vida?” moldam o que escolhemos à superfície.
Esse lugar é sagrado e, por isso, muito privado. É muito difícil deixar alguém entrar nele. Podemos partilhar o que reflectimos, mas viver essas reflexões é pessoal e intransmissível. É um lugar em constante movimento e inquietação, sentido numa frequência única e captado por uma única antena, aquela que perscruta o universo numa tentativa de se descobrir a si mesmo.
Quando o corpo do ente querido que já não está arrefece nas nossas mentes, os corpos dos vivos também deixam de procurar o calor uns dos outros. Seguem as suas próprias sagas de tentar dar sentido a esta paradoxal experiência de encontrar sentido para a vida a partir do significado da morte. É um caminho solitário, como tentei explicar à minha maneira.
Contudo, essas reflexões não têm de ser experienciadas em isolamento. O espaço terapêutico é um lugar privilegiado para reflectir de modo próprio sem que esse processo tenha de ser vivido a sós. É, pela sua natureza, uma reflexão feita na solidão da agência de cada um. Mas não tem de estar fechada sobre si mesma. No espaço terapêutico, o terapeuta é como um espelho que devolve as reflexões: é um outro eu, ao mesmo tempo que simboliza os outros e o mundo, as outras partes que fazem parte da vida.
A pessoa do terapeuta não está ali para aparecer, mas o terapeuta que habita essa pessoa, esse sim. Aparecerá à medida em que for invocado para ajudar a esclarecer, a apurar a pergunta que se impõe ou que está implícita na reflexão.
