A inteligência artificial e o vazio existencial

R recebeu a carta de despedimento pelo correio, entre a surpresa e a confusão. Fora advogado quase trinta anos naquela que era a sua segunda casa, onde fez amizades e ajudou o escritório a crescer. Ouvira rumores de que a inteligência artificial iria entrar no escritório, mas nunca imaginara que a mudança lhe batesse à porta. Aos 50 anos, o futuro desaparecera, dando lugar a um vazio que lhe drenava o prazer de se sentir vivo.

As profissões ligadas ao cálculo e à interpretação de texto começam a ser entregues a agentes de inteligência artificial que não se queixam, não dormem, não reivindicam e trabalham mais por menos. Que empresa resiste a isso?

Fala-se muito do fim da humanidade às mãos de uma superinteligência. Não sou catastrofista. Creio, contudo, que o longo período de adaptação que aí vem causará danos profundos em quem testemunhar esta mudança de paradigma. Como terapeuta, a pergunta que me interessa não é o que farão as máquinas, mas o que acontecerá entretanto às pessoas: a esta geração dos 30, 40, 50 e 60 anos que, de um momento para o outro, arrisca perder o trabalho.

O que se perde quando se perde o trabalho

Há em todos nós um movimento que nos lança no mundo e nos faz existir nele sob a forma de realização. Trabalhar, aprender, ocupar-se são formas de dar sentido à existência, e também de cuidar dela: garantir que ao fim do mês a casa está paga, os filhos vestidos e há comida na mesa.

Quem perde o trabalho perde, assim, duas coisas. A segurança, uma perda real que se mede em contas por pagar. E o lugar a partir do qual sabia quem era. De um dia para o outro, o mundo torna-se uma casa que já não é previsível.

O comboio que parou

O tempo passa a ser vivido como se o comboio em que seguíamos tivesse parado, enquanto pela janela outro, mais rápido e sofisticado, dispara rumo a um futuro que já não nos pertence e que parece fechar a própria possibilidade de ser. Fica a sensação de que algo nos roubou a vida.

Como não sentir ansiedade? Aquilo que nos organizava, a profissão, o estatuto, deixa de significar o que significava, e com isso estremece o sentido da própria vida. Paul Tillich chamou-lhe a ameaça do não-ser: não a morte física, mas a experiência de que aquilo que nos sustentava deixou de nos sustentar.

Chamo a este desencontro uma dessincronização entre a vontade de sentido (o impulso, descrito por Viktor Frankl, que nos leva a procurar razões para viver) e a facticidade (a situação concreta em que nos encontramos lançados sem a termos escolhido). Daqui podem nascer experiências depressivas, em que o futuro deixa de estar aberto e a pessoa já não se projeta nele, aquilo que Eugène Minkowski descreveu como a perda do movimento vital que nos lança para a frente; ou experiências melancólicas, em que o mundo muda mais depressa do que a nossa capacidade de adaptação e ficamos, como diz Thomas Fuchs, fora do tempo comum.

O que R começou a viver

Nas semanas seguintes, R deixou de querer sair de casa. As manhãs, antes apressadas, arrastavam-se. Os jornais ficavam por abrir; os amigos telefonavam e ele deixava tocar. Não estava propriamente triste: estava parado.

É assim que o vazio existencial costuma revelar-se: na inércia, no desinteresse, na apatia. Estes estados não são, por si, doença. Tornam-se patológicos quando persistem e deixam de ser resposta a uma perda para se tornarem a única forma de estar no mundo. É aqui que as máquinas inteligentes se tornam uma ameaça existencial: podem apagar qualquer réstia de esperança, e sem esperança está dado o primeiro passo para a desistência.

A bússola

Mas o ser humano não é apenas aquilo que lhe acontece. Há nele uma vontade de liberdade: a possibilidade de afirmar a própria existência perante a ameaça de não poder ser, aquilo a que Tillich chamou a coragem de ser. É como uma bússola que, em vez do norte, aponta para o futuro. A depressão pode tapar-lhe o mostrador, mas não a destrói.

E a experiência de R revela algo que não é só dele. O vazio existencial é transversal à condição humana: sentimo-lo na reforma, numa separação, quando os filhos saem de casa, numa manhã qualquer em que perguntamos para que serve tudo isto. O trabalho servia muitas vezes para o calar, respondendo por nós à pergunta pelo sentido. Quando desaparece, a pergunta volta a ser nossa.

O vazio não é, por isso, sinal de avaria, nem algo que não devia estar ali. É um mensageiro. Pede-nos atenção ao que nos faz querer acordar de manhã e ao que dá sentido à vida concreta que nos coube viver.

A terapia procura esse caminho: reapropriar-se da capacidade de decidir o próprio futuro. Frankl via o sentido abrir-se por três vias: pelo que fazemos ou criamos, pelo que vivemos e amamos, e pela atitude que tomamos perante o que não podemos mudar. O trabalho era apenas uma delas. A sua perda dói, mas não esgota as outras.

O tempo que nos é dado

Esta crise devolve-nos ainda um tema afastado da conversa pública, abafado pelas promessas de vida sem fim que a própria tecnologia dissemina: a finitude. Um dia a vida acaba. Dizê-lo não é mórbido; é lembrar que temos um tempo determinado e perguntar como queremos viver essa vida sem sermos escravos dela. Talvez muitos já o fôssemos, de um trabalho que nos dava sentido mas também nos consumia. As máquinas, sem o quererem, devolvem-nos a pergunta pela liberdade e a responsabilidade pelo que fazemos com o tempo que temos.

R ainda não sabe o que vai fazer. Mas, numa dessas manhãs arrastadas, deu por si a perguntar não “o que vou fazer agora?”, mas “o que ainda me faz querer acordar?”. Não é uma resposta. É o primeiro sinal de que a bússola voltou a mexer.

Se se reconhece em R, saiba que esta angústia não tem de ser atravessada a sós.

As máquinas poderão fazer quase tudo. Não poderão decidir, por nós, o que dá sentido ao tempo que nos é dado viver.

(Texto revisto com a ajuda da IA)

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