Cada encontro traz uma expectativa. Tudo pode acontecer, e isso assusta. Por isso escolhemos depressa, e quase sempre escolhemos o que confirma aquilo em que acreditamos sobre nós. Às vezes, nem é sobre quem somos hoje, mas sobre quem fomos. Perante tantas possibilidades, agarramo-nos ao passado como a uma bússola.
Na terapia, essa bússola torna-se visível. Quem fala revive memórias, e cada memória traz o seu próprio tempo. Um trauma antigo pode ser sentido como se estivesse a acontecer agora. E podemos sofrer por coisas que ainda nem aconteceram.
O terapeuta que acompanha
O terapeuta também é levado por esses caminhos. Ao tentar acompanhar a história de quem fala, toca na sua própria humanidade. É curioso por natureza: quer perceber como aquela pessoa lidou com a perda, com o sofrimento, e que necessidade ficou por acolher.
O diálogo que nasce daqui não é uma troca de opiniões. É uma procura feita a dois, por duas pessoas dispostas a descobrir outras formas de viver. Quando alguém se sente compreendido, ganha esperança. E começa a arriscar ser mais honesto consigo mesmo.
O terapeuta não se limita a ouvir. Procura dar a mão no momento certo, sem precisar de a dar fisicamente.
Perto, mas não dentro
Há, no entanto, um risco nesta proximidade: confundir compreender com tornar-se o outro.
O filósofo Dan Zahavi lembra que nunca temos acesso direto ao que o outro sente. O terapeuta não entra na experiência do cliente. Fica no seu lugar, e é a partir dele que consegue compreender. Se se dissolvesse no outro, deixaria de haver duas pessoas. E sem duas pessoas não há encontro, só eco. O terapeuta compreende precisamente porque é outro.
Esta distância tem outra vantagem: impede que a escuta se transforme em interpretação. O terapeuta está atento ao que a pessoa pede por baixo das palavras, mas não a trata como um enigma a resolver. Martin Buber falava do encontro que falha quando um dos lados observa em vez de estar presente. Na terapia, compreender não é decifrar. É deixar-se tocar pelo que o outro traz.
Quando duas pessoas se encontram assim, cria-se algo que não pertence a nenhuma delas. Ernesto Spinelli chama-lhe o espaço inter-relacional: aquilo que só existe porque estas duas pessoas, e não outras, se encontraram ali, naquele momento.
Não é o cliente que se cura sozinho, nem o terapeuta que o cura. A cura acontece nesse espaço entre os dois, que não se repete.
Curar é cuidar
A cura nasce deste encontro e do cuidado que ele permite. Curar é cuidar. Mas quem cuida, ao contrário do que se pensa, não é o terapeuta. É a pessoa que, sentindo-se acompanhada sem ser absorvida, aprende a cuidar das suas próprias escolhas. E encontra, por fim, coragem para se escolher.
As principais mudanças: frases mais curtas, “Eu” e “Tu” trocados por “cliente/pessoa” e “terapeuta” (os termos de Buber pesam para um leitor geral), e os autores apresentados com uma linha de contexto em vez de citados como se fossem já conhecidos. Se preferires manter o Eu/Tu por ser parte da identidade do blog, consigo repô-los mantendo o resto simples.
Um convite
Talvez reconheça nalguma destas linhas a sua própria experiência: escolhas que repetem o passado, um sofrimento que chega antes do tempo, a sensação de não ser verdadeiramente ouvido.
A psicoterapia não promete respostas prontas. Oferece um lugar onde pode ser escutado sem ser julgado nem decifrado, e onde, a dois, se abre espaço para outras formas de viver.
Se sentir que este é o momento, estou disponível para esse encontro.
Texto revisto com ajuda da IA
